Era madrugada, e, de certa forma abafada, a atmosfera estava densa e muito fria. Em seu quarto, uma peça mesclada basicamente por paredes anis e cortinas marfim, apoiada na cama de lençóis negros, Hikari Shoujo, uma garota japonesa, 16 anos, de cabelos impossivelmente escuros, sedosos e tão longos a ponto de ultrapassar o quadril, concentrava-se em sua atividade: construir um bom deck para participar em seu próximo campeonato. Tamanha era a delicadeza de seu semblante enquanto perdida à atenção às suas cartas, que um relâmpago ao longe parecia ser o suficiente para romper com a sutil concentração destinada aos itens dispostos sobre a cama.
– Aaah! Sono – um bocejo – Talvez não adiante atravessar a noite assim. Posso continuar amanhã – disse a si mesma.
Então, pousando um estojo sobre a estante empilhada de livros, fitava o relógio, calculando as poucas horas de sono que teria. – Bom, eu preciso dormir... – um suspiro misturado a outro bocejo. –... Último dia de aula...
Interruptor desligado. A garota dirigia-se novamente à cama. Momentos depois, através da única janela, trovões iluminavam momentaneamente o quarto. Hikari já dormia. Caso o contrário, perceberia uma silhueta sombria que, ao lado do guarda-roupa, fitava-a fixamente.
Ao relâmpago seguinte, o quarto ficava totalmente claro. Já não havendo presente figura alguma além da garota embaixo das cobertas.
CAPITULO I
Era uma hora da tarde, soara o sinal da escola, a última aula da semana e dos meses que seguiam. Finalmente férias, era esta a mensagem que, repetitivamente trocada entre os alunos, criava um ambiente de extrema e singular descontração. Em meio a uma tremenda bagunça, Hikari dirigia-se até a porta da aula com seus passos lentos, como quem se esquece de algo, mas não pode voltar para buscar.
– Hey! Shoujo... Não está com pressa? – perguntou um garoto de cabelos loiros e extremamente desalinhado, possuía um sorriso atraente.
Hikari PDV:
– Oi Kevin – não consegui sorrir.
Se eu estava com pressa? Eu estava sim. Ainda havia muito que fazer com minha última semana de preparação para o 3°Circuito de Duelos da América do Norte. Mas eu imaginei se o Kevin me procuraria hoje, mesmo que eu não esperasse mesmo por isso.
– Talvez – respondi. Na verdade eu estava mesmo com pressa, mas não é o caso de me atrasar... – Só estou ansiosa para ir pra casa dedicar o fim de semana ao meu Deck.
– Ah, bem, era sobre isso mesmo que eu ia falar com você – ele pareceu hesitar. – Certamente, agora que estamos de férias, não nos veremos por algum tempo. E..., bom... – ele escolhia as palavras? –Isto se eu não for mesmo para... Você sabe.
Foi instantâneo. O meu olhar perdeu o foco, passeando pelo entardecer anunciado por trás das janelas da sala. Ao retornar ao Kevin, eu podia jurar que sua expressão possuía um contorno aflito. Se ele se sentia assim, não era apenas ele, ali.
– Então eu decidi te convidar para lanchar – uma pausa, notavelmente ele estudava pela minha fisionomia. – E depois poderíamos sair para jogar um pouco, já que também tenho de fazer alguns testes relacionados à minha participação no próximo evento. Isto é, se estiveres de acordo. Pois assim nós nos despedimos devidamente, não é?
Bem, eu estava mesmo precisando duelar, e me despedir do Kevin era algo realmente importante. Somos amigos desde o ano passado, quando eu vim para os Estados Unidos.
No momento em que olho para a porta, decidindo aceitar o convite, ouve-se um maldito ronco na minha barriga. Engoli em seco. Absolutamente não é legal estar ao lado de um garoto e, então, repentinamente, o estômago de alguém resolver participar da conversa – revirei os olhos – “Ainda mais quando é o seu”.
– Ops... – encarei meu vestido. Eu me senti um pouco envergonhada. Então, sem uma reação clara, simplesmente suspirei. Respirar um pouco seria bom antes de responder algo. – Bom, considere isto um grande sim. Vamos almoçar! – ajeitei a mochila e, com um giro de calcanhares, caminhei até sair da sala. O Kevin sorria agradavelmente, seus passos logo atrás dos meus.
Rapidamente estávamos fora da escola; e agora nos bastava retribuir “boas férias” para aqueles que atravessavam o nosso caminho.
– Você não parece tão animada, Hikari. Há algo errado? – de modo súbito, a voz do Kevin possuía um tom mais doce, ainda denotando preocupação.
– Não, não, estou bem, acho... Nada de problemas. – minha resposta não saiu claramente, e decerto nem um pouco convincente. Se mesmo eu não podia acreditava em mim, como alguém iria? “Tudo está errado!”.
Os seus olhos eram atenciosos enquanto ele me observava. Eu poderia aparentar alguma animação e quem sabe até enganá-lo, mas enganar a mim mesma, não. – Talvez seja só... – parei. Eu esperava muito pelo convite de sair por aí com o Kevin. Como que ele se sentiria se a minha resposta fosse eu estar um pouco cansada? Decidi aparentar alguma disposição.
– É a fome. Desculpa, não comi nada antes de vir à aula. Não me sinto muito bem assim, só isso. – ao menos eu conseguia mentir, e bem rápido.
Absorta demais em meus pensamentos, caminhando sem prestar a mínima atenção, só voltei a mim quando meu braço foi puxado com força.
– A faixa – ouvi o aviso do Kevin em um tom baixo, se aproximando mais.
Ao dar dois alguns para trás e sair da margem asfaltada, assisti a dois grandes caminhões passarem rápido. Foi atordoante acordar de súbito e perceber estar caminhando, literalmente, para os braços da Morte.
“Morte? Acho que estou indo longe demais”. Logo o som alto dos veículos passando me despertou. Ao se extinguirem, desenhando uma curva ao longe, restavam apenas as mãos firmes do Kevin sobre o meu braço. Ele só me soltou após os veículos sumirem. Essa ação, simples, bastou para que eu reconhecesse a fonte da minha agonia.
Sim, eu sentia uma angústia. E olhar para o menino bastou para confirmar o porquê disso. “É o nosso último dia juntos...”.
O rosto do Kevin suavizou-se, trazendo outra vez o sorriso que me conforta tanto com aquele acento levemente debochado. Admirei secretamente a curva que seus lábios formavam, imaginando se ele pensava em algo também. – Obrigado – minha resposta soou desajustada, atrasada.
Seguimos em frente. Acho que notei um suspiro contido vindo dele, como que se estivesse prendido a respiração por um momento. No segundo seguinte, sua expressão era novamente indecifrável. Perguntei-me se ele mantivera o seu braço ao meu, intencionalmente, momentos atrás.
***
Lanchamos em silêncio. A impressão não foi boa. Contrastando com todos que freqüentavam a mesma lanchonete, nós estávamos silentes.
Após o almoço, dei um último gole no meu suco e me dirigi junto de Kevin para uma plataforma de duelos, a qual se encontrava no topo do estabelecimento.
Subindo a escadaria envernizada por um corredor adornado de quadros entediantes, ele quebrou o silêncio que se já formava outra vez desde a conversa no balcão. – Então, ainda invicta? – ele perguntou com a ironia desinteressante e exata para quem já sabia a resposta.
– Vai saber... – sorri.
– Quem sabe hoje eu vença o destino... – silêncio. Senti meu coração nos ouvidos. Um arrepio tomou conta de mim quando ele falou a última palavra, em um volume baixo. Destino. Eu não acredito nisso, mas o que é mais apropriado para caracterizar esta nossa última tarde?
– Então, boa-sorte – desejei ao fim da minha convicção. Logo começamos a partida.
– Você sabe que é inevitável perder, não é mesmo? – Kevin iniciava o turno, depositando confiança em sua mão.
– Eu, perder? – perguntei teatralmente, demonstrando um falso escárnio de mim mesma. Sou considerada a favorita desde o último título nacional.
O Kevin possui um vasto número de boas jogadas, mas, enfrentar o meu baralho... – Ok Kevin, perder? Quem sabe um dia – lançando um olhar à minha mão, completei. – Mas certamente não será hoje – eu estava zombeteira, mas, de acordo com a minha mão, havia uma seriedade e tanto por detrás desta previsão.
Se o Kevin estava ou não confiante, acredito que não fazia mais diferença a partir do meu primeiro turno. Sua careta em reação aos meus movimentos foi realmente engraçada e espontânea. Encaixei duas combinações logo ao início da partida. Eu estava com sorte. Sorte de mais. Mas, como dizem por aí... “Azar no amor, sorte no jogo”.
***
A partida estava encerrada, e eu não conseguia entender ao certo algumas coisas. Estive muito desatenta. Eu não jogava tempo o suficiente para voltar e dar o meu máximo, digo, me manter focada. Mas, foco, certamente foi o que eu não tive. Muito associo a minha desatenção durante a partida devido ao fato de que era ele ao outro lado da arena. O Kevin, com seu semblante ao Sol, seus cabelos dourados à luz, os olhos castanhos de um brilho energético... “Não há como não se sentir magnetizada por sua imagem, não é?” Perguntei para mim mesma, sem me importar com a resposta deixando um buraco de cinzas no peito.
Eu gosto do Kevin, e até aí, tudo bem. Mas, até então, eu ainda não havia percebido isto de forma tão subjetiva. Angelical. É esta a minha tradução para a sua figura. Durante a partida, me senti magnetizada por um anjo vestindo jeans... É estranho, mas, em exato, é isto no que penso agora. Um anjo. E lá vem ele...
– Bem, não posso reclamar da partida, olha contra quem eu fui jogar... – e o Kevin se aproximara – É sério que não acreditas, ainda assim, nas chances em Nova Iorque? – ele perguntava em tom casual.
– É. Não. – respondi percebendo ter sido evasiva demais. Tudo reflexo por estar secretamente queimando para encurtar ainda mais a nossa proximidade. O medo de transparecer esta intenção acumulava.
Diminuindo a distância entre nós, o Kevin já estava próximo demais. E eu decidi desfazer a impressão rude com que respondi. – Na verdade, eu não consigo modificar em muito os meus movimentos. Estão bem sólidos, não estão?... Sabe? Eu me orgulho disso, porém, ao mesmo tempo, ainda preciso ser mais flexível.
[...]
– O que foi? – ele perguntava, me fazendo perceber que eu não havia dito nada. Apenas pensando na resposta. Estive apenas olhando para ele...?
“Deus?! Eu não falei! Onde estou com a cabeça?!”, gritei para mim. – Nada – respondi, amaldiçoando não existir bolsos em vestidos. Eu me sentiria bem mais confortável se eu pudesse esconder minhas mãos.
E, ao se inclinar mais ainda em minha direção, o garoto estava com o rosto junto ao meu. “Perto demais!”, gritei novamente a mim mesma, como se existisse um alarme natural dentro de mim. Ordenei ao meu corpo um movimento, mas, o que se passava em minha mente era justamente o contrário. Não me mover. A verdade é que eu não desejava nada além de congelar o tempo, para então eternamente admirá-lo sob a luz.
– Se a Hikari diz... Mas você parece cansada. Tanta desatenção parece ser sono, não seria? – ele se mantinha próximo de mim, como eu tanto queria.
Mas, ao tentar responder a ele, novamente a proximidade me impôs suas dificuldades. Pois, completamente estática, olhando aquela face perfeita e corada pelo calor da tarde, antes que eu pudesse responder algo, eu tinha de concordar comigo mesma. “Lindo”. O Kevin é bonito, a sua popularidade poderia explicar sobre o que eu digo, mas, agora, ele me parecia impossivelmente mais belo ainda! Talvez eu apenas estivesse sob o efeito de saber que, provavelmente, esta seria a última vez que fôssemos nos ver. Entenda, tudo indicava que amanhã o garoto partiria, e eu, então, aqui me encontrava enfeitiçada pelas nossas últimas horas.
“Não se hipnotize, há!”, consegui quebrar o meu transe momentâneo. – É... Ontem fui dormir depois das quatro – respondi, agora sob controle. Mas, como que se a minha vontade mandasse sinais invertidos ao meu comportamento, me distanciei com alguns passos para trás. E esta distância que criei, invisivelmente, pulsava como que se fôssemos separados por um abismo. Acabei pensando alto e deixei escapar um gemido, disfarçando-o por seguir em seqüência – Não venho dormindo bem há dias, na verdade – Eu apenas precisava falar. Isso evitaria o desconforto que eu percebia após ter petrificado em momentos atrás. “Eu gosto do Kevin, mas, mesmo que gostar dele seja causa disto, porque estou tão aleatória?”
– Você... Ainda tem tempo? – ele sorriu. Eu quis.
Nesta hora, o Universo se calou. Eu estava prestes a ser convidada? Agora estava difícil de entender a ansiedade se espalhando. Convidada para o que, onde, agora?
E-M-U-D-E-C-I. Mesmo. Não respondi! Responder fragmentaria a idéia. Só me mantive encarando a confiança em pessoa. Com certeza, se eu fechasse os olhos, seguiria enxergando o seu sorriso arrebatador e de um contorno bobo. “E que vai me enlouquecer se eu não der jeito de evitar”, completei.
O Kevin tinha dito algo, mas eu não lembrava como responder. Ainda muda, formei uma idéia intuitiva. Relembrei a cena dos caminhões e me refugiei na impressão daquele momento. “E se o Kevin gosta de mim, também?”.
– Posso tratar isto como um sim? – ele perguntou exercendo um cuidado especial às palavras. E, daí, tudo ficou rápido. Eu não tive o tempo para pensar. Havia apenas a sensação que a minha lembrança guardava, agora na minha mão. E já não era mais uma lembrança. Era a mão do Kevin estava sobre a minha.
– Vamos – suas sobrancelhas propositalmente erguidas e convidativas só faziam combinar ainda mais com o seu sorriso. Vi-me presa pela confiança que ele emana. A sua tranqüilidade exerce uma espécie de segurança em mim. E isso, enquanto descíamos, levou-me a concluir que, não importando a idéia do menino, eu simplesmente concordaria com. “Partir e pular de um penhasco...?”.
– Claro – respondi ao seu convite – e me satisfazendo mentalmente à idéia de pular de um penhasco, também. “Se for com ele...”.
– Mas para onde? – questionei como que se, por qualquer mínimo, ainda fosse relevante saber para onde iríamos.
– Gosto de te deixar curiosa, sabia? – ele respondeu por debaixo do fôlego, sem me olhar. Havia alguma indiferença enquanto ele me guiava para fora. E senti essa indiferença como quem leva a mão ao fogo. “Aliás, a minha mão está no fogo”. Eu não podia evitar conversar comigo mesma. Sobre esta indiferença, ela só ressaltava ainda mais que, quando ele me tocava, era muito diferente dos outros. Um esquisito contraste. E, a seguir, outro pensamento:
Bom. Era a única definição que me passava em mente. Não me importava para onde estávamos indo. Eu me concentrava apenas ao toque de nossas mãos juntas. Fiquei imaginando o que passava pela cabeça dos alunos da nossa escola quando viam o Kevin de mãos dadas comigo. E perceber isso, também foi bom.
***
Em minutos, sentávamos em um dos bancos do parque. O sol por detrás das velhas árvores altas e curvas, as quais interceptam o céu como barreiras antigas. A brisa fresca soprando nossos cabelos e em meu vestido, fazendo com que o cheiro de grama se espalhasse perpetuando sobre os outros sentidos. Esverdeado e enegrecido, havia um tom sereno – como uma luminosidade – que completava a minha visão. Agradável demais.
Até então, pelo caminho, eu não conseguia respirar normalmente; percebi isso após sorver o ar em grande quantidade. Uma parede de emoções esmagando minha consciência. E nos bancos, a cada vez que nossos olhares encontravam-se, o ar realmente desaparecia. Eu tinha de me lembrar de respirar, às vezes.
Lançando um olhar oblíquo, percebo o Kevin, assim como eu, observando o movimento em frente às vitrines que encaram a praça. O rosto dele, inexpressivo, se voltava para mim. Não que isso seja realmente especial, mas gosto quando sou alvo deste olhar. Sinto-me diferente de quando observada pelos outros meninos. Tenho a impressão de que estou sendo avaliada de acordo a pisar ou não no céu – se é que isto existe.
Por fim ele falou. – Não consigo me conformar – sua voz vacilante.
Mantive-me olhando para as vitrines. Senti um embrulho, e administrá-lo não estava sendo fácil. Eu estava sofrendo dos meus nervos. Por um lado, queria apenas me virar em direção ao garoto, retribuir seu olhar e abraçá-lo. Partilhava da mesma dor que ele. Iríamos nos separar, tudo indicava isto. E, exatamente por isso, também havia uma desculpa covarde. Pois eu estava apreensiva, a ponto de tremer – os calafrios se precipitavam. Dizer a mim mesma que não olhar mais para ele diminuiria a dor após nos separarmos, mesmo que fosse uma mentira, me servia para me proteger da insegurança. Da dúvida de tudo.
Segundos depois, respondi. – Como se eu conseguisse... – lutei contra a postura abatida, mas não pude evitá-la.
Ao ouvir minha própria voz, a aflição gritou dentro de mim. Doeu. Muito. De forma insuportável. “Não posso me separar dele...!”. Então segurei a vontade de chorar.
Acredito que sempre fora claro para o Kevin que eu gosto dele. Mas, se não bastasse o fato de que um oceano logo nos separaria, “por tempo indefinido”, na melhor das hipóteses, nunca estive certa de que ele se sente da mesma forma por mim. E não encontrar meios de arrancar as respostas às minhas perguntas internas me deu a impressão de que esta tarde não acabaria jamais.
– Hikari?
– Eu... – respondi mantendo-me diminuída contra mim mesma. Já não me parecia possível que eu emergisse. Mas, delicadamente, o Kevin ergueu a minha face para ele. O seu toque não me afetaria nada comparado à sua pergunta.
Silêncio total dentro do meu mundo. Apenas um único som. Uma voz doce e levemente divertida. – Posso fazer uma coisa?
“[...]”. Sua atitude evocou-me abaixo do mar. O tempo parou, houve um grande agito dentro de mim, como o anúncio que precede a revolução. O primeiro dos resultados foi o meu coração quase sair de mim. E o segundo, vergonha. Decerto era perceptível o fluxo quente e acelerado sob minhas bochechas. Mas se ficar muito envergonhada não me fosse o suficiente, demonstrar, através da minha temperatura, que os meus pensamentos foram dignos de serem trancados em uma cova, agora me fazia corar por duas vezes. Senti o calor em minha face. “Nossa, por três”. Eu estava queimando.
– Desculpa.
Eu não entendi se era apenas expressão ou uma pergunta. Desculpá-lo pelo quê? Por ser bonito e dar sentido aos meus dias, especialmente durante este ano? – Sem problemas – devolvi, notando uma leve mudança em sua expressão.
Ele sacou seu celular. Aproximamos-nos mais, de forma quase sintonizada. Por este momento, pude sentir o seu hálito frio à nossa proximidade. Logo depois, tínhamos uma foto.
Então o sentimento de ter sido violada. Morri quando o Kevin desenroscou o braço que se encontrava em torno de mim. E ressuscitei apenas para morrer de novo. Ainda estávamos escorados um ao outro – eu mais nele do que ele em mim, na verdade –, olhando a foto no aparelho. Admirei silenciosamente. A foto havia ficado ótima.
Após, ainda estávamos juntos. Olhamo-nos ao mesmo tempo. O seu rosto tão próximo do meu, que me fez congelar. Como nunca antes, eu sentia um arrepio gélido percorrer por todo o meu corpo. Os olhos do Kevin incendiaram-me ao se encontrar com os meus, condensando aquele marrom impossível. Novamente, eu respirava com dificuldades. Um inferno glacial dentro de mim.
Sem controle algum, meus olhos desceram para seus lábios. Fiquei tensa demais por não encontrar aquele sorriso torto. Ao invés, lábios esculpidos, rígidos. Ao retornar para os olhos em busca de uma confirmação, estes se direcionavam à minha boca. Foi o instinto. Agora eu fazia idéia do que era o descontrole. Umedeci meus lábios em resposta, segura de que iríamos nos beijar, e era isso o que eu esperava. Mas, em um movimento atordoante, eu mesma rompi com nossa proximidade, dilacerando meu espírito ao meio, abruptamente levantando-me do banco. Fitando os meus pés, com os olhos completamente rasteiros, amaldiçoei a mim mesma. E o Kevin certamente me achando uma tonta.
Porque isso?! Eu quis tanto algo e, no exato momento, eu simplesmente pulei fora.
“Culpada”. “Idiota”. “Infantil”. “E se tudo não passou de uma impressão?”. Formulei algum raciocínio, ao fim. Doía menos ao ego se isto fosse apenas uma impressão. Assim existiria uma justificativa para abrandar minha decepção.
Se eu conseguia sentir mais desgosto comigo mesma e com as minhas atitudes, então eu acabava de conquistar o direito para chegar ao limite do meu remorso. Retornei ao fundo do oceano mais negro, atada a uma pedra grande e pesada, afogando-me em uma angústia que, a cada segundo, crescia mais. Pois, logo que dei por mim mesma, eu me via impotente, sem encontrar maneiras de me mover.
A cena seguinte era o Kevin abraçado a mim. Os meus braços se negaram a envolvê-lo. “Tarde demais”. Demais. “Para qualquer coisa”. Quando alguma reação aparecia, o longo abraço terminava. Minhas mãos pararam pela metade do caminho. Antes de desfalecerem em segredo, foram pegas por ele. Mas, ao nosso toque, não havia mais sensação alguma.
– Adeus. O tom fora cortante. Eu quis chorar, mas não o fiz. Por um momento, baixei os olhos em resposta. Apenas isso.
Levemente, ele passeou seus dedos sobre minha testa, afastando uma mecha de cabelos até atrás da minha orelha. Senti o seu toque macio e quimérico.
“Não há mais aquele sorriso”, eu pude observar. Parecia fora de lugar, a expressão vazia, e isto se acentuava ainda mais em um rosto dado a sorrir com freqüência. Ao invés de linhas significantes, o que havia eram lábios comprimidos em uma linha fina. Ele retirou a mão, me lançou o último olhar, se inclinou e me deu um beijo no rosto.
Eu continuava paralisada, imóvel, assistindo-o embarcar em um ônibus do outro lado da rua. O vento bateu mais forte, anunciando em breve o frio noturno. A mecha de cabelo se desprendeu, retornando ao lugar habitual, e uma lágrima passou por onde seus lábios estiveram pela última vez.
“Destino...”. Com toda minha convicção, agora eu o compreendia como algo solene. As mesmas lojas, ainda lá, me encaravam soturnas. Fazendo parecer que há poucos minutos, ao invés de uma pintura trágica, talvez a maior tragédia da minha existência, o que acontecera não passava de um pesadelo.
***
Abatida pela insignificância da minha fortuna, por quadras e mais quadras até em casa, restava-me apenas a sensação de que tudo estava invertido. O sol desaparecia sob um céu cada vez mais escuro e denso; as ruas, perfumadas com o aroma cítrico da estação, adquiriam um tom monocromático, me causando uma impressão de indiferença divina para comigo. Diversos casais passeavam pelas avenidas movimentadas, outras pessoas, por percorrerem este mesmo caminho, sozinhas, me instavam teorias e possibilidades. No geral, eu me perguntava se elas também já tiveram um dia como este...
Anoitecia rapidamente agora. De uma esquina bastante iluminada, com um movimento robótico, um gato da sorte ironicamente me abanava pela vidraça de uma loja chinesa. Eu senti pavor ao perceber isso, e corri as poucas quadras seguintes.
Ignorando as empregadas e principalmente o meu gato, tranquei a porta, murmurando eu haver feito tudo errado. Lancei a mochila num canto qualquer e, atirando-me contra a cama, desabei em um choro abafado contra as cobertas. Apertei-me contra mim mesma, respirei fundo, e outra vez mais, porém não me seria o suficiente. Não sei por quanto que tempo se deu, mas, neste tempo, eu tive os piores minutos da minha vida.
Apaguei agradecida quando a inconsciência me fez adormecer.
***
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